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Cibersegurança · ·4 min de leitura

Japão em alerta: onda de invasões expõe dados de milhões, e bancos são orientados a não aceitar só a carteira de motorista

Lojas de conveniência, corretora, ferrovia, aluguel de carros e uma nuvem usada por 495 empresas e governos locais: em poucas semanas, o Japão acumulou ataques suficientes para o governo emitir um alerta nacional. Com imagens de documentos circulando, o regulador financeiro pediu que bancos aceitem só identidades com chip.

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Japão em alerta: onda de invasões expõe dados de milhões, e bancos são orientados a não aceitar só a carteira de motorista

Quem acompanha o noticiário de segurança se acostumou a ver o Japão como um país de organizações cuidadosas e discretas. As últimas semanas abalaram essa imagem. Uma sequência de invasões atingiu empresas que fazem parte do cotidiano de qualquer japonês — e, na sexta-feira, 9 de outubro, o governo emitiu um alerta nacional pedindo vigilância redobrada.

A lista

Os casos se acumularam entre setembro e outubro:

  • Times Car, serviço de aluguel e compartilhamento de carros: vazamento de informações de cerca de 6,6 milhões de contas de clientes, em setembro — incluindo, segundo a imprensa, imagens de carteiras de motorista.
  • Lawson, uma das maiores redes de lojas de conveniência do país; Daiwa Securities, corretora de valores; e BookOff, varejista de produtos usados: todas relataram vazamentos de dados de clientes.
  • JR East, a ferrovia que opera os trens da região de Tóquio: perda de 1,67 milhão de endereços de e-mail de clientes, de acordo com o Financial Times.
  • IDC Frontier, empresa de nuvem do grupo SoftBank: um ataque de ransomware que começou às 3h40 de 7 de outubro interrompeu a região “East Japan Region 1” do serviço e afetou 495 empresas e governos locais clientes.

Segundo levantamento do jornal Yomiuri com a empresa de segurança Trend Micro, citado pela agência AP, o país já soma mais de 500 casos registrados neste ano — contra 473 em todo o ano passado e 503 em 2024 —, a caminho de um recorde. A Agência Nacional de Polícia contabilizou, só no primeiro semestre, 123 ataques de ransomware, também um recorde.

Loja da Times Car, serviço japonês de aluguel de carros que teve dados de cerca de 6,6 milhões de contas vazados

A reação do governo

O alerta de 9 de outubro partiu do Escritório Nacional de Cibersegurança, criado no ano passado, e foi enviado aos ministérios para ser repassado a órgãos locais e empresas privadas. O conteúdo é deliberadamente básico: manter as proteções atualizadas, usar senhas fortes e reforçar a segurança em toda a cadeia de fornecedores. O texto também avisa que atacantes têm se passado por equipes de defesa e que a inteligência artificial vem tornando as vulnerabilidades mais complexas.

“Os ataques estão cada vez mais sofisticados”, disse a jornalistas Toshiharu Furukawa, titular da pasta da Transformação Digital, que fez um pedido direto à população: “Todos precisam ficar atentos para proteger as próprias informações”.

Em reunião do partido do governo, Masaaki Taira, que comanda a área de estratégia de cibersegurança da legenda, chegou a falar em “estado de emergência no ciberespaço” — uma expressão política, e não uma declaração formal de emergência.

Quanto à IA, especialistas ouvidos pela imprensa japonesa disseram não haver prova concreta de que ela tenha guiado esses ataques. O alerta oficial fala de risco, não de autoria.

O efeito mais concreto: a carteira de motorista

A medida mais palpável veio do regulador financeiro. Com imagens de documentos circulando, a Agência de Serviços Financeiros orientou os bancos a aceitar, na verificação de identidade, apenas documentos com chip — como o passaporte e o cartão My Number —, e não mais a carteira de motorista sozinha.

A lógica é direta: a foto de um documento vazado pode ser reapresentada por qualquer pessoa, em qualquer lugar. O chip exige o documento físico na mão.

Por que isso interessa aqui

O Brasil vive da foto do documento. A empresa pede a CNH para cadastrar o cliente, o RH guarda a imagem do RG e do comprovante de residência na admissão, o aplicativo pede selfie segurando a identidade. Cada um desses arquivos é útil por alguns minutos — o tempo de conferir quem é a pessoa — e depois vira passivo: se vazar, serve para abrir conta, pedir crédito ou aplicar golpe em nome do titular.

A LGPD tem nome para a saída: o princípio da necessidade (art. 6º, III), que limita o tratamento ao mínimo indispensável para a finalidade. Conferiu o documento? Registre que conferiu — e pergunte se a imagem precisa mesmo ficar guardada, onde e por quanto tempo.

O Japão está descobrindo, em poucas semanas, o custo de ter espalhado esse tipo de dado por muitos lugares diferentes. É uma lição que dá para aprender de longe, antes que ela chegue por aqui com outros nomes na lista.


Fontes

  • Associated Press — alerta do governo japonês sobre o aumento dos ataques (09/10/2026), via La Nación: lanacion.com.ar
  • The Next Web — “Japan steps up cyber warnings as data leaks hit millions of customers” (12/10/2026), com dados do Financial Times e da Agência Nacional de Polícia do Japão: thenextweb.com
  • BleepingComputer — “Ransomware attack disrupts Japan’s IDCF Cloud used by govt clients” (08/10/2026): bleepingcomputer.com

  • Foto de capa: loja da rede Lawson em Yoyogi, Tóquio — Real Estate Japan, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons

  • Segunda imagem: loja da Times Car Rental junto à estação de Kurayoshi, no Japão — Tzuhsun Hsu, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons
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