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Cibersegurança · ·3 min de leitura

Hackers aquecem os freezers de centenas de supermercados na França a 50 °C: toneladas de comida perdidas e incêndios

Na madrugada de 12 de outubro, invasores assumiram remotamente os sistemas de refrigeração de centenas de supermercados franceses, desligaram o frio, elevaram a temperatura a 50 °C e mudaram o ciclo de degelo para que os alarmes não disparassem. A promotoria de Paris abriu investigação e a agência nacional de cibersegurança foi acionada. É o ataque a 'coisas conectadas' que o varejo temia.

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Hackers aquecem os freezers de centenas de supermercados na França a 50 °C: toneladas de comida perdidas e incêndios

Não houve resgate, não houve dados roubados, não houve tela travada. O ataque que atingiu o varejo francês na madrugada de domingo, 12 de outubro, foi de outra natureza: os invasores mexeram na temperatura.

O que aconteceu

Durante a noite, hackers assumiram o controle remoto dos sistemas de refrigeração de centenas de supermercados e fizeram duas coisas. Primeiro, acionaram o modo de degelo dos freezers e das câmaras frias, elevando a temperatura a até 50 °C — “descongelaram todos os nossos móveis de frio e elevaram a temperatura a 50 graus”, resumiu o responsável pelo Intermarché. Depois, para que ninguém percebesse a tempo, alteraram o ciclo de degelo de uma para oito horas, impedindo que os alarmes disparassem.

O resultado, pela manhã: toneladas de alimentos perdidos, lojas inteiras obrigadas a descartar tudo o que estava refrigerado e incêndios em equipamentos que não foram feitos para operar nessa condição.

As redes atingidas, segundo as próprias empresas: cerca de 300 pontos de venda do Intermarché e do Netto, perto de cem lojas da Coopérative U, 80 supermercados do Carrefour, cerca de trinta do Monoprix e “várias lojas” do E.Leclerc. Espanha, Portugal, Polônia, Alemanha e Bélgica também registraram efeitos.

A promotoria de Paris abriu, por iniciativa própria, uma investigação sobre o “ataque cibernético de grande escala que afeta refrigeradores conectados de várias grandes redes”, e o primeiro-ministro determinou que a ANSSI, a agência nacional de cibersegurança, assumisse a resposta, inclusive em coordenação com os parceiros europeus.

Loja do Monoprix em Caen — a rede foi uma das atingidas, junto com Intermarché, Coopérative U, Leclerc e Carrefour

Por que esse caso é diferente

A maior parte dos ataques que este blog cobre mira dados: roubar, cifrar, extorquir. Este mirou o mundo físico — e usou, para isso, equipamentos que ninguém trata como computador. O freezer de supermercado tem um controlador conectado à rede para que a manutenção acompanhe a temperatura à distância. Esse controlador tem senha, software e, como qualquer outro dispositivo, versão desatualizada e exposição à internet.

É a lição que a indústria chama de IoT, a “internet das coisas”, e que o varejo acabou de aprender do jeito mais caro: tudo o que está conectado pode ser operado por quem não deveria. Câmaras frias, ar-condicionado, catracas, fechaduras, portões, caldeiras, iluminação. O atacante não precisa invadir o ERP se consegue estragar o estoque.

O que verificar na sua empresa

  1. Inventário do que está conectado e não é “TI”. Refrigeração, climatização, controle de acesso, automação predial, equipamentos de produção. Quem administra? Com qual senha? Exposto à internet?
  2. Senha padrão e firmware. Boa parte desses equipamentos sai de fábrica com credencial conhecida e nunca é atualizada. É o primeiro ponto a corrigir.
  3. Rede separada. O controlador do freezer não precisa enxergar a rede dos computadores, e vice-versa. Segmentar limita o estrago quando um lado cai.
  4. Alarme que não depende do próprio equipamento. O ataque foi desenhado para calar o alarme do sistema. Um sensor independente de temperatura, com aviso por outro canal, teria acordado alguém às 3 da manhã.
  5. Plano para o físico. O que a loja faz se a refrigeração falhar à noite? Quem é chamado, em quanto tempo, com que critério de descarte? Isso é continuidade de negócio tanto quanto o backup do servidor.

O varejo brasileiro usa os mesmos controladores, dos mesmos fabricantes, com a mesma conexão remota para a manutenção. A diferença entre a França e aqui, hoje, é só que a França já foi atacada.


Fontes

  • CNN — “Hackers heat French supermarket fridges, sparking fires and spoiling food” (12/10/2026): cnn.com
  • Al Jazeera — “Hundreds of supermarkets in France hit by ‘unprecedented’ cyberattack” (13/10/2026): aljazeera.com
  • La Libre / AFP — “Des supermarchés français touchés par une cyberattaque inédite de leurs installations frigorifiques” (12/10/2026): lalibre.be

  • Foto de capa: corredor de congelados em um supermercado de Miami — Phillip Pessar, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons

  • Segunda imagem: loja do Monoprix em Caen, na França — Andy Li, CC0, via Wikimedia Commons
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