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Monitoramento · ·5 min de leitura

Gerente de agência é presa por desviar R$ 2 milhões de idosos ao longo de dois anos: o custo de não saber o que acontece dentro da empresa

Em Miguelópolis (SP), a gerente de uma agência do Santander, há mais de 12 anos no banco, é suspeita de desviar cerca de R$ 2 milhões de clientes idosos entre 2024 e 2026. Ela escolhia quem tinha dificuldade com o aplicativo e dependia do atendimento presencial. O esquema só veio à tona quando as próprias vítimas estranharam movimentações. O que esse caso diz sobre o que uma empresa enxerga — e o que não enxerga — do trabalho dos próprios funcionários.

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Gerente de agência é presa por desviar R$ 2 milhões de idosos ao longo de dois anos: o custo de não saber o que acontece dentro da empresa

No fim de setembro, a Polícia Civil de São Paulo prendeu, em Miguelópolis, no interior do estado, a gerente de uma agência do Santander e o companheiro dela, um dentista de 56 anos. A suspeita: cerca de R$ 2 milhões desviados de contas de clientes idosos entre 2024 e 2026 — em um único caso, o prejuízo apurado passa de R$ 1,7 milhão. Os dois respondem por furto mediante abuso de confiança contra pessoa vulnerável; a investigação segue, e a presunção de inocência vale para ambos.

O que se sabe do método, segundo a polícia:

  • a gerente, com mais de 12 anos na instituição, usava o cargo para se aproximar dos clientes e escolhia os que tinham dificuldade com o aplicativo — aposentados e pensionistas que dependiam do atendimento presencial e confiavam nela para resolver tudo;
  • com a confiança estabelecida, fazia saques e transferências em nome das vítimas;
  • o dinheiro passava pelas contas do companheiro e da clínica dele, e parte foi movimentada por casas de apostas, para parecer ganho legítimo;
  • o esquema veio à tona quando clientes denunciaram movimentações que não reconheciam.

O banco informou que colabora com as autoridades e que nenhum cliente terá prejuízo.

Dois anos

O número que mais importa nessa história não é o valor. É o tempo. Dois anos de operações feitas por uma funcionária experiente, dentro do sistema, no horário de trabalho, em nome de clientes reais — e quem percebeu foram os clientes.

Isso não é uma crítica a um banco específico. Os sistemas antifraude do setor financeiro estão entre os mais sofisticados que existem, e são desenhados para pegar o cliente anômalo e a transação anômala. O que eles enxergam mal é o funcionário anômalo: a pessoa que tem acesso legítimo, conhece as regras e opera dentro delas — só que a favor de si mesma.

Agência do Santander em Telêmaco Borba (PR) — o caso aconteceu em uma agência de Miguelópolis, no interior paulista

O que a empresa não via (e podia ver)

Fraude interna raramente é invisível. Ela é não observada. Em quase todo caso, o padrão estava lá, à espera de alguém que olhasse:

  • Concentração. Uma mesma pessoa movimentando, com frequência fora do normal, um pequeno grupo de contas — sempre as mesmas, sempre de clientes com o mesmo perfil.
  • Operações fora do papel da função. Saques e transferências em nome de terceiros feitos pelo gestor da agência, de forma recorrente, quando a função dele é outra.
  • Uso de sistemas que não combina com a agenda. Acessos a contas sem atendimento correspondente, em horários em que não havia cliente na mesa.
  • Comparação com os pares. O ritmo e o tipo de operação de uma pessoa, lado a lado com o de colegas na mesma função, costumam destacar o ponto fora da curva antes de qualquer denúncia.

Nenhum desses sinais exige ler mensagens de ninguém. Exige saber quais sistemas cada pessoa usa, com que frequência, para quais operações e em que horário — e comparar com o padrão da equipe.

O colateral de não saber

Quando a empresa não enxerga o próprio funcionamento, o preço é pago em camadas:

  1. A vítima, que no caso de Miguelópolis era quem menos tinha condição de se defender — e que descobriu sozinha.
  2. Os colegas honestos, que trabalham sob a mesma falta de visibilidade e, quando algo estoura, ficam sob a mesma suspeita.
  3. A própria pessoa que desviou. Soa estranho, mas é real: a fraude que não é percebida no primeiro mês vira a fraude de dois anos. O controle que pega cedo protege também de uma carreira destruída.
  4. A empresa, que responde pelo prejuízo, pela imagem e, quando há dado pessoal envolvido, pela LGPD.

O que fazer sem transformar a empresa em um tribunal

  • Dê visibilidade ao gestor, não ao RH inteiro. O padrão de uso dos sistemas por pessoa deve ficar com quem lidera a equipe e com a auditoria — com finalidade declarada e regras escritas, como a LGPD pede.
  • Compare funções, não pessoas. O desvio aparece quando alguém opera de um jeito que a função não explica.
  • Trate o sinal como pergunta, não como veredito. O gerente que acessa muitas contas pode estar cobrindo um colega de férias. O dado abre a conversa; a conversa decide.
  • Conte à equipe que existe acompanhamento. O efeito preventivo de saber que o padrão é observado é maior do que o de qualquer flagrante. E quem trabalha direito ganha a prova de que trabalha direito.

Ferramentas como o VkMonitor, da equipe que mantém este blog, mostram quais sistemas cada pessoa usa, com que frequência e em que horário, lado a lado com o padrão da equipe — o tipo de visão que transforma “dois anos sem ninguém notar” em uma conversa na terceira semana.

Em Miguelópolis, quem acendeu a luz foram os idosos. Esse é o colateral mais caro de todos: o de descobrir que a empresa dependia da vítima para enxergar o que acontecia dentro dela.


Fontes

  • Metrópoles — “Entenda como funcionária de banco presa agia para desviar milhões de idosos” (01/10/2026): metropoles.com
  • ND Mais — “Gerente de banco em Miguelópolis denunciou namorado cúmplice em desvio de R$ 2 milhões”: ndmais.com.br
  • Lei nº 13.709/2018 (LGPD) — art. 6º, princípios da finalidade, necessidade e transparência: planalto.gov.br

  • Foto de capa: edifício de escritórios do Santander em Mönchengladbach, na Alemanha — Isban DE, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

  • Segunda imagem: fachada de uma agência do Santander — Leonardo DaSilva, CC BY 3.0, via Wikimedia Commons
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